sexta-feira, 19 de março de 2010

QUEM SABE O QUE É UM COMPRIMIDO?

Hoje em dia temos remédios para todas as nossas mazelas sociais, para todos os efeitos colaterais do nosso dia-a-dia, permeado por extrema competitividade e racionalidade...

O comportamento racional é tão cômodo, que nos faz supor que a ciência, neste caso a farmacêutica, dá cabo de todos os nossos anseios e angústias, senão, vejamos:

temos remédio para insônia (hipnóticos), sonolência (estimulantes), fadiga (polivitamínicos), baixa estima (antidepressivos), magreza (anabolizantes), sobrepeso (inibidores do apetite), ressaca (coquetéis com analgésicos, antiácidos e cafeína), “amansadores de crianças pseudo-hiperativas” (metilfenidato), impotência (produtos para disfunção erétil), ausência de caráter (infelizmente, ainda não descobriram a cura), dentre tantos outros distúrbios sociais, cujas causas, na maioria das situações, transcendem o corpo físico, e, portanto, não serão tratadas apenas pela química tradicional.

Chamo atenção para tais costumes, para tecer algumas breves considerações acerca da celeuma provocada pela nova norma da ANVISA que trata do comércio de medicamentos no país, a famigerada RDC 44/2009. O regulamento, em sua base, atua sobre todos os aspectos inerentes à dispensação e venda de produtos farmacêuticos em farmácias e drogarias, principalmente nos aspectos relacionados à exposição de produtos isentos de prescrição ao consumidor, como na venda de produtos alheios ao âmbito farmacêutico e sanitário.

Assustei-me ao ler um artigo jornalístico intitulado “Quem sabe comprar um comprimido?”, contendo relato de um profissional, que não da saúde, sobre tal problemática. O texto em tela é excelente ao demonstrar a superficialidade com que um leigo trata um “mero comprimido”, e o conseqüente risco à saúde decorrente de tal entendimento. Ora, concordemos que a semelhança física, às vezes, pode nos remeter a um efeito visual que demonstre proximidade entre um comprimido ou cápsula e uma pastilha ou goma de mascar, que possam ser comprados aos montes, mas na prática toxicológica temos a mais plena certeza que aqueles dois primeiros, podem, além de curar ou aliviar, também sequelar ou matar, quando usados indevidamente.

O citado profissional ao escrever as linhas do referido artigo, materializou com extrema clareza, o sucesso que é alcançado pelas propagandas abusivas e enganosas que estão massificadas em nosso cotidiano, e que acabam ditando comportamentos danosos, em se buscar a felicidade, saúde e estética perfeitas, quase sempre inatingíveis, à custa da ingestão de milhares de comprimidos... reflitamos, se um profissional de nível superior pensa daquela forma, imaginem o cidadão desprovido de educação?

Acredito que a pergunta que não quer calar, seja “quem sabe o que é um comprimido”?

Os pontos focais, de caráter social e sanitário, que a norma em tela tenta atingir, e que tem passado longe de falas e textos tendenciosos e enviesados que se colocam em circulação, cujos interesses estão subliminarmente distanciados do público, dizem respeito ao resgate do acesso ao direito constitucional à informação e educação, quando da relação de consumo refletida na compra de um produto que influenciará diretamente sua condição de saúde e vida.

Trata-se do mínimo necessário, para que o consumidor se aposse de conhecimentos que serão decisivos para que o medicamento cumpra a sua finalidade benéfica, conferindo segurança no seu uso, de maneira a afastar os efeitos maléficos.

O outro nó crítico que foi contemplado na RDC 44 da ANVISA é a tentativa de recuperar o papel ou função social-sanitária de farmácias e drogarias espalhadas pelo país, que foi suprimida com o decorrer do tempo, pela voracidade mercadológica e consumista, típicas de Estados liberais. Temos que rever em que medida, por exemplo, essas espécies de estabelecimentos poderiam contribuir com campanhas e políticas públicas de educação em saúde. Há a necessidade de repensar quais os modelos de consumo que queremos para nós, principalmente na seara farmacêutica.

Não se trata, portanto, de optar em se readequar comportamentos de profissionais, consumidores e atividades econômicas, ou de intensificar o combate a problemas antigos como a ausência do farmacêutico em seus postos ou medicamentos e produtos falsificados e contrabandeados... tais possibilidades devem caminhar juntas, em busca de um único objetivo, a garantia do direito à saúde.

Referi-me à proposta de alcance aos pontos principais da norma como tentativas, por entender que não apenas a regra positivada ou escrita influi sobre comportamentos, mas principalmente o processo de evolução educativa que se realiza no ambiente social que seja o objeto normativo.

Mediante tais artigos, textos e matérias televisivas que estão sendo veiculadas, o que não podemos jamais, é subestimar a percepção da coletividade em relação ao que realmente está em jogo com a chegada da nova norma, como se ela, a sociedade, acreditasse que sua liberdade de consumo pudesse estar sendo limitada ou colocada em risco... caso incentivássemos tal raciocínio, estaríamos sendo, no mínimo, irresponsáveis.

No dia-a-dia o que se observa é o início de mudanças de comportamentos por parte de cidadãos/consumidores, profissionais, empresas, entidades organizadas e poder público, que proporcionem a retomada de novos caminhos a serem trilhados pela coletividade no setor farmacêutico, que estejam amparados nos princípios constitucionais do acesso à informação, educação e conhecimento, como pressupostos da verdadeira liberdade humana... social/sanitária, econômica e política.

Afinal, quem sabe o que é um comprimido?



João Peixoto Neto
Farmacêutico-Bioquímico
Bacharel em Direito
Especialista em Direito Sanitário – ENSP/FIOCRUZ
Mestrando em Sociologia – PPGS/UFPB

segunda-feira, 15 de março de 2010

MORTE SÚBITA: FOI ANEURISMA? FOI INFARTO?

É assim que a sociedade fica se questionando, quando alguém muito conhecido se despede da vida de maneira repentina e misteriosa.
Mas será que é sempre assim? É devido a esses problemas mesmo que essas pessoas morrem subitamente? Será que esse cidadão ou essa cidadã tomava MUITOS MEDICAMENTOS e sua morte foi devido ao excesso de medicação? Será que seu êxito letal não estaria relacionado à interação medicamentosa? Ou foi ocasionada pela interação de medicamentos com alimentos? Será que não foi automedicação?
Realmente a morte súbita é na maioria das vezes provocada por arritmias cardíacas que levam a parada cardíaca ou por ruptura de um aneurisma cerebral, porém hodiernamente devido aos excessos de tudo principalmente de medicamentos tem ocorrido muitas mortes repentinas, “inexplicáveis” na maioria das vezes nas primeiras horas da manhã.
A morte súbita de Michael Jackson é o maior exemplo. Na autopsia seu estomago continha vários comprimidos aparentemente ingeridos antes de uma injeção de propofol que teria provocado a parada cardíaca que o matou.
O propofol é usado em indução anestésica de crianças acima de 2 meses de idade e em adultos, é portanto altamente seguro quando usado isoladamente. Só nos Estados Unidos aproximadamente 30 milhões de americanos são submetidos a anestesia a cada ano, e em 90% desses casos empregam-se esse anestésico. Porém Michael Jackson tomou uma injeção de Propofol com muitos comprimidos no estomago.
E o que significa Interação Medicamentosa?
É o que acontece quando o principio ativo de uma determinada droga, a substância que produz os efeitos terapêuticos esperados interfere na atuação do principio ativo de outra droga. É uma ação mútua, recíproca entre duas ou mais substancias. A combinação de dois fármacos pode não ser agradável, imagine combinar 3,4,5,6 ou mais produtos farmacêuticos ao mesmo tempo.
Até medicamentos tidos como inocentes, como os descongestionantes nasais, os colírios e outros menos inocentes como os usados para emagrecimento, para o sistema nervoso como os antidepressivos ou estimulantes, podem provocar arritmias graves e fatais. O descongestionante nasal, os colírios podem ser a “gota d’água” se usado por um paciente que toma diversos remédios.
É fato por demais conhecido a grande produção de medicamentos pela indústria farmacêutica e a propaganda em torno deles principalmente na mídia. Ocorre o incremento do consumo decorrente em grande parte desta propaganda e concomitantemente proliferam-se em todos os recantos do mundo pontos de vendas de remédios em supermercados e farmácias. Estas, por sua vez empurram em seus balcões remédios ao freguês.
Não poderíamos deixar de fazer uma autocrítica, nós médicos temos uma grande parcela de responsabilidade. Estamos prescrevendo medicamentos demais, somos um dos grandes causadores da interação medicamentosa. Sempre que penso, que falo nesse assunto vem logo duas frases em minha mente.
A primeira: “A Medicina é a arte de entreter a doença enquanto a mãe natureza faz o seu papel. É um provérbio Hindu. Estou convicto de que este provérbio não se aplica a todas as situações do cotidiano medico.
A outra, é uma frase de Paracelso, famoso cientista suíço do passado: “Não há nada na natureza que não seja venenoso. A diferença entre remédio e veneno está na dose de prescrição”. Esta, ao contrario, diria que é do cotidiano medico. “Eu ampliaria mais esta citação dizendo que a diferença está também no uso indevido de medicamentos, no uso excessivo deles e principalmente, na interação medicamentosa”
Costumamos dizer para nossos pacientes: “quando se toma um medicamento podemos saber o que está acontecendo no nosso organismo, quais os efeitos, as reações, mas quando ingerimos outro, podemos não mais saber o que está ocorrendo, perdemos o controle. A interação medicamentosa é um problema comum até demais, não só no Brasil, mas em todo o mundo.
Não ocorrem apenas interações entre medicamentos, mas como dissemos logo no inicio do nosso artigo, também com alimentos e ainda bebidas, sucos, chás. Por exemplo, o Atenolol utilizado para controle da hipertensão arterial e arritmias cardíacas quando ingerido com suco de laranja, tem seu efeito e eficácia diminuídos em até 50%. O chá de camomila aumenta os efeitos da aspirina ou AAS. É sempre aconselhável ingerir medicamentos com água. Evite leite ou outra bebida.
A seguir prestando um serviço de utilidade publica para todas as pessoas que tomam remédios (e não são poucas), relacionamos algumas interações que podem ocorrer com freqüência no seu dia-a-dia:
1- antiácido + AAS: o efeito do AAS é anulado.
2- anticoncepcional + vitamina C: aumenta o efeito da pílula e
conseqüentemente alguns efeitos adversos.
3- Antibiótico + anticoncepcional: uma gravidez inesperada pode
acontecer.
4-AAS potencializa a Insulina. O Diabético tipo I que usa
insulina, não pode tomá-lo porque vai ter sua taxa de açúcar
muito reduzida com risco até de hipoglicemia.
5-Antidepressivo (sertralina, fluoxetina, paroxetina e outros) não
combina com antihipertensivo. A atividade deste diminui.
6-Antiespasmodico+broncodilatador(Atrovent, Aerolin, Berotec, outros) provoca aumento da freqüência cardíaca, tremores, convulsões, parada cardíaca e até morte.
A interação medicamentosa é uma das partes mais importantes para se obter sucesso no tratamento dos pacientes e, portanto da Medicina, paradoxalmente menos estudada nos cursos de graduação e pós-graduação medica e em conseqüência menos conhecida e por extensão pouco valorizada na pratica medica.
Por conta da carência nesse campo, todos nós recém-formados ou mais experientes, deveríamos medicar sempre, após consultar o Dicionário de Especialidades Farmacêuticas (DEF). Este livro deveria estar na mesa de cabeceira, no carro, embaixo do braço nos plantões, nos postos de saúde e em cima da nossa mesa de consultório. Se não quiser levar o DEF nas costas e se tiver receio ou vergonha mesmo de consultar o livro na frente do paciente, use a Internet.
Peço também que evitem a automedicação que é a ato de tomar remédios que ouviu falar na propaganda ou que o vizinho prescreve ou que o balconista da farmácia indica. Muito cuidado mais uma vez, você pode morrer se tomá-los e depois os culpados são aneurisma ou infarto fulminante.
Quero finalizar dizendo que não sou contra a Indústria Farmacêutica, contra farmácias, contra prescrições de meus colegas de profissão, contra medicamentos, ainda mais porque preciso deles, tomo-os e prescrevo-os, “somos contra sim, descasos, inconseqüências, excessos, exageros de toda espécie. No nosso caso se relaciona ao uso abusivo e desnecessário de medicamentos, que podem abreviar uma vida que poderia ser mais longa”.


João Pessoa, 14 de fevereiro de 2010



Marco Aurélio Smith Filgueiras
Neurologista CRM 1368